"Ninguém acredita que a Bíblia quer dizer o que diz; estamos sempre convencidos de que ela diz o que queremos dizer." George Bernard Shaw
21/06/2009

A primeira Bíblia em português

Os mais antigos registros de tradução de trechos da Bíblia para o português são do final do século XV, 1495, porém dezenas de anos se passaram até que a primeira versão completa estivesse disponível, em 3 volumes, em 1753.
Em 1628, nascia, em Portugal, João Ferreira de Almeida. Aos quatorze anos, aconteceram sua conversão ao protestantismo e sua ida para Malásia. Dois anos depois, João F. Almeida iniciou um trabalho de tradução do Novo Testamento, baseado nas versões em italiano, espanhol e latim. Essa versão nunca foi publicada, mas o desejo de aprimorar sua obra levou João Ferreira de Almeida a ser ordenado em 1656 e ao estudo do hebraico e grego.
O Padre João Ferreira de Almeida, título dado aos pregadores religiosos na época, cuidava de algumas igrejas na região da Malásia e Índia. Junto com sua esposa enfrentou situações difíceis na região. Em 1663, Almeida iniciou a tradução do Novo Testamento direto do grego. Embora o seu trabalho com o grego tenha terminado somente treze anos depois, durante esse período ele iniciou também a tradução do Antigo Testamento a partir dos originais em hebraico.
Em 1681, foi publicada na Holanda a tradução de Almeida do Novo Testamento, porém foi logo recolhida, pois apresentava erros tipográficos e um trabalho urgente de revisão era necessário. Uma nova impressão foi finalmente feita doze anos depois, em 1693.
João Ferreira de Almeida não chegou a ver o Novo Testamento revisado ser impresso pois faleceu em 1691, na ilha de Java, sem terminar também o Antigo Testamento, seu trabalho chegou só até o Livro de Ezequiel.
A tradução do Antigo Testamento foi terminada por Jacobus Akker em 1694, mas problemas de revisão novamente atrasaram a publicação do trabalho. Cinqüenta quatro anos depois, em 1748 foi publicada, na Holanda, o primeiro volume do Antigo Testamento, e em 1753 o segundo volume do trabalho iniciado por Almeida.
A primeira impressão da Bíblia completa, em português, em um único volume, aconteceu em Londres, em 1819, com a versão de João Ferreira de Almeida..
No final do século XIX foi feita um grande revisão na Versão de Almeida. Esse trabalho é conhecido como Bíblia na Versão Revista e Corrigida de Almeida. Embora com palavras bem eruditas e construções gramaticais de difícil compreensão, ainda é um versão muito apreciada hoje em dia.
Na década de 40 do nosso século, uma comissão de especialistas passou anos revendo a tradução e foi publicada a Versão Revista e Atualizada de Almeida (1ª edição), a Versão mais lida e conhecida da Bíblia no Brasil.
Essa duas versões, a Revista e Corrigida(RC) e Revista e Atualizada (RA), passaram recentemente por atualizações gramaticais pela Comissão de Tradutores da Sociedade Bíblica do Brasil. Atualmente, essas Versões são conhecidas como: * Versão de Almeida Revista e Corrigida, 2ª edição (1995) * Versão de Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição (1993)
Outras Traduções da Bíblia em Português
Além do trabalho de Almeida, outras traduções ficaram conhecidas no Brasil.
Versão de Figueiredo, feita, a partir da Vulgata, pelo Padre católico Antônio Pereira de Figueiredo e publicada em 7 volumes, em 1790, depois de dezoito anos do início do trabalho.
Versão Brasileira, iniciada em 1902 e terminada em 1917, feita a partir dos originais, produzida por uma comissão de especialistas e com a colaboração de alguns ilustres brasileiros como consultores dessa comissão. Entre eles: Rui Barbosa, José Veríssimo e Heráclito Graça. Está sendo revisada atualmente para reimpressão pela Sociedade Bíblica do Brasil.
Versão de Matos Soares, feita em Portugal, publicada pela primeira vez em 1932.
Versão dos Monges Beneditinos, feita a partir das línguas originais para o francês, na Bélgica, traduzida do francês para o português e publicada em 1959.
Versão dos Padres Capuchinhos, feita a partir das línguas originais para o português, no Brasil, e publicada em 1968.
Bíblia na Linguagem de Hoje
Bíblia de Jerusalém, feita a partir dos originais para o francês, na Bélgica, traduzida para o português e publicada em 1976.
Bíblia Vozes, traduzida por uma comissão da Igreja Católica, a partir dos originais para o português, e publicada em 1982.
Por volta da quarta década deste século, os cristãos brasileiros, os obreiros nacionais e mesmo missionários vindos de além-mar começaram a sentir seriamente a necessidade inadiável de uma nova tradução das Santas Escrituras, mais acurada consoante às línguas originais e redigida em português mais condizente com o linguajar destes dias.
Ademais, não se podia ignorar que o rápido avanço da cultura nos campos da geografia, arqueologia, história e lingüística estava derramando novas luzes sobre cada parte da Bíblia. Impunha-se uma nova tradução ou mesmo revisão que fosse, em que os frutos dos melhores estudos sobre filologia sacra e das pesquisas escriturísticas, destes recentes anos, contribuíssem para que a Santa Bíblia falasse mais e mais às mentes e aos corações. Pois, na verdade, as grandes mensagens do Antigo e do Novo Testamento são imprescindíveis nestes dias confusos e conturbados.
No ano de 1943, as Sociedades Bíblicas Unidas (organização que nesse tempo operava no Brasil, pouco depois substituída pela Sociedade Bíblica do Brasil, fundada em 1948), atendendo a esse sentimento generalizado e às solicitações que partiam de muitos setores da Obra do Senhor, resolveram criar uma Comissão Revisora constituída dos mais capazes, cultos e idôneos elementos provenientes das várias confissões evangélicas que laboram neste país. Essa Comissão, composta de cerca de trinta escolhidos especialistas em hebraico, no grego neotestamentário e no vernáculo, iniciou a santa aventura em 1946 e, durante cerca de treze anos, trabalhou árdua, piedosa e fielmente, com erudição e com gosto. E então foi oferecida ao povo brasileiro uma Edição Revista e Atualizada, calcada sobre a tradicional e quase tricentenária versão de João Ferreira de Almeida. Essa versão, já de sabor clássico, tão estimada nos meios evangélicos, foi então inteiramente repassada à luz dos textos originais. Onde se fazia mister, o passo era posto em linguagem de acordo com o mais escolhido uso corrente, mas que tanto se evitasse o demasiado vulgar como o demasiado acadêmico e literário. Timbrou-se em se manter assim uma faixa lingüística viva, acessível, clara e nobre como convém à Palavra de Deus. É provável que, aqui e ali, se poderia ter atualizado mais o texto vertido, se não se tratasse na base, de uma revisão do Almeida antigo e que a Comissão Revisora deveria seguir tanto quanto possível.
É certo que toda tradução ou revisão da Bíblia Sagrada, ainda que levada a termo por íntegros peritos bíblicos, é sempre trabalho humano e, como tal, sujeito a falhas; por outro lado, no entanto, suscetível de melhoria.
Assim sendo, a Sociedade Bíblica do Brasil, auscultando sugestões dos revisores e de outros interessados, houve por bem criar uma comissão que, de algum modo, velasse pela obra executada e, esporadicamente, a aperfeiçoasse, posto que era empenho de todos que a Edição Revista e Atualizada fosse dinâmica e não estática.
E, em boa hora, foi constituída a Comissão Permanente de Revisão e Consulta (CPRC), com dez doutos membros, que tem realizado, com paciência, boa vontade e bom senso, valioso trabalho útil e construtivo. A CPRC, mediante esta apresentação, roga a todos os amantes do Livro do Senhor que cooperem com ela intercedendo junto a Deus em seu favor e, quando achar conveniente, enviando, por intermédio da Sociedade Bíblica do Brasil, suas observações atinentes à Edição em apreço, quanto à tradução, quanto ao vernáculo e quanto à parte gráfica.
A Sociedade Bíblica do Brasil declara-se sinceramente grata pelo devotado labor dos revisores que puseram seu talento e seu tempo nesta grandiosa empreitada.
Cordiais ações de graças rendemos ao Altíssimo, que nos susteve e sustém nesta tarefa. Entregamos ao povo sequioso da verdade a Verdade Revelada, com a ardente esperança de que esta Edição seja poderoso instrumento para que se cumpram os santos propósitos do Senhor!
Rio de Janeiro, maio de 1975.
A Versão Brasileira
A Bíblia no Brasil, N. 159, 1991, p. 20
"Conhecida por sua fidelidade aos textos originais, a primeira tradução da Bíblia feita no Brasil chegou a ser chamada de "tira-teimas"
Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, foi lançada a primeira tradução da Bíblia realizada no Brasil. Era a Versão Brasileira, como ficou conhecida (ou simplesmente pela abreviação VB), feita a partir dos textos originais gregos e hebraicos.
A nova tradução não demorou a receber críticas e elogios. Alguns consideraram a Versão Brasileira literal demais e também não aprovaram a maneira como a tradução trazia escritos os nomes dos lugares e dos personagens bíblicos - diferente da consagrada e geralmente aceita nas versões portuguesas, utilizadas no País até aquela data.
Apesar dessas restrições, figuras importantes da época fizeram elogios à Versão Brasileira, ressaltando, em especial, a sua fidelidade. José Carlos Rodrigues, dono e redator do "Jornal do Commercio", o diário mais respeitado do Rio de Janeiro no começo do século, fez o seguinte comentário a respeito da VB, comparando-a com a tradução portuguesa de Antonio Pereira Figueiredo: "Perde um pouco do belo português de Figueiredo, porém ganha na fidelidade ao sentido original." O Dr. William Carey Taylor, professor de Grego Neotestamentário e autor do livro "Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego", compartilhava da opinião de José Carlos Rodrigues sobre a tradução. "É uma das versões mais fiéis aos originais que tenho lido em qualquer língua."
Essa elogiada fidelidade acabou dando origem a uma brincadeira comum em alguns seminários brasileiros, onde a VB era chamada de TT - a "tira-teimas".
Comissão de celebridades
Os trabalhos da Comissão Tradutora começaram por volta de 1902, sob o patrocínio da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (de Londres) e da Sociedade Bíblica Americana (de Nova Iorque), responsáveis pela distribuição das Escrituras Sagradas no País durante o período anterior à fundação da Sociedade Bíblica do Brasil (1948). Os tradutores destacados para a realização do projeto foram três missionários americanos - Rev. John Rockwell Smith, Rev. John M. Kyle (ambos presbiterianos) e Rev. William Cabell Brown (episcopal) - e três pastores brasileiros - o famoso filólogo Eduardo Carlos Pereira, o matemático Antonio Bandeira Trajano (presbiterianos), e Hipólito de Oliveira Campos (metodista). A Comissão escolheu o Rev. William Cabell Brown como seu presidente e relator. Mais tarde, em 1913, o Rev. Brown voltou para os Estados Unidos, e o Rev. Eduardo Carlos Pereira o substituiu no cargo.
Participaram ainda das atividades da Comissão o poeta gaúcho Mário Artagão e dois escritores: Virgílio Várzea e Alberto Meyer. Outras grandes personalidades da literatura brasileira - como Ruy Barbosa, Heráclito Graça e José Veríssimo - também contribuíram, por diversas vezes, na elaboração da Versão Brasileira, como consultores.
"Versão Fiel"
A tradução do Antigo Testamento foi baseada no texto hebraico de "Letteris", e a do Novo Testamento, no texto grego de "Nestle". Como fontes de consulta, a Comissão utilizou a "King James Version" (a mais conhecida tradução da Bíblia em inglês), Edição Revista de 1866, as traduções portuguesas de Antonio Pereira de Figueiredo e João Ferreira de Almeida, além da italiana de Diodatti, da francesa de Ostervald e da espanhola de Reina-Valera. A "Septuaginta" e a "Vulgata Latina", traduções clássicas, também foram consultadas.
Os primeiros livros a serem publicados na nova versão foram os Evangelhos de Mateus e Marcos, em 1904. Tratava-se de uma edição para testar a aceitação dos leitores - e que foi recebida com algumas críticas. O fato levou a Comissão Tradutora a rever o texto de Mateus, o qual, já revisado, voltou a ser publicado em 1905. Os demais livros foram sendo editados aos poucos até a publicação da Bíblia completa, o que aconteceu 15 anos depois de iniciado o trabalho.
A Versão Brasileira nunca sofreu qualquer revisão, correção ou aperfeiçoamento na linguagem. Com o passar dos anos, foi sendo substituída pela tradução de João Ferreira de Almeida na preferência da população evangélica. Mais tarde, teve a sua produção desativada pelas Sociedades Bíblicas que haviam idealizado e patrocinado seu projeto. Apesar disso, até hoje a Versão Brasileira é considerada uma tradução importante - muitos estudiosos da Bíblia chegam mesmo a chamá-la de "Versão Fiel" e torcem para que seja republicada.
(texto retirado do site da Sociedade Bíblica do Brasil.)
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